VAMOS COM NÚMEROS!

Faaala, inViciados, beleza?

Entramos naquele período do ano em que (quase) todos os praticantes de CrossFit vão realizar os mesmos WODs, planejar técnicas, comparar resultados com a galera do mundo inteiro, medir a distância que estão dos atletas que admiram… O 2019 Reebok CrossFit Games Open chegou e aquele clima gostosinho de superação que sempre buscamos já está sendo sentido nas boxes.

Quem tá inscrito, VAI COM TUDO!TM, quem não tá, prepara a garganta, porque corpo que não cansa no WOD, cansa de tanto gritar e incentivar os amiguinhos. E se ainda existem dúvidas sobre as regras do evento, vale a pena conferir no meu post anterior um resumão delas para não deixar o suor, pulmão e músculos terem sido gastos em vão.

É pra se divertir 🙂

Acho que podemos fazer uma analogia do Open a uma grande festa, em que as atrações principais são os competidores, os comes e bebes são aqueles das Dicas da Nutri e a ressaca é a sensação de pós-morte no fim do WOD. Sem contar uma parte muito importante e que funciona como um combustível para a festa: o esquenta/pré-night/reuniãozinha saudável!

É nele que a galera fica imaginando como vai ser o rolê, quem possivelmente estará nele, o que pode acontecer de bom e de ruim, se o saldo vai ser positivo, programando o after (que nunca chega) e etc. É o momento de se fazer previsões baseadas nas festas anteriores e nas pessoas que irão.

Ora, ora, Xeroque Rolmes, já sabe qual é o esquenta dos crossfiteiros, né? Esse mesmo, o tão esperado ANÚNCIO DO OPEN! OS anúncioS, na verdade, porque são 5 friozinhos na barriga a espera dos sofrimentos gostosos que estarão por vir. E se dá para prever o que vai acontecer numa festa, dá para prever o que vai acontecer nos WODs, ou pelo menos tentar.

Não é magia, nem tecnologia, é Estatística!

Estatística no esporte não é só para o Galvão Bueno falar o número de vezes em que o Ronaldinho jogou com a camisa da seleção brasileira de futebol, com cabelo estranho, em estádios com grama sintética e arquibancadas pintadas de azul. Tudo, indiscutivelmente tudo, carrega consigo alguma informação. E se tem informação, tem dados que podem ser analisados.

Com o CrossFit não é diferente. No site deles podemos encontrar quaisquer informações referentes aos atletas e aos eventos oficiais, desde a primeira vez que aconteceram. Espertinho que sou, fiz o que é chamado de “raspagem de dados” dos WODs de todos os Opens para brincarmos com eles.

Antes de começarmo as análises, é preciso explicar que todas as conclusões são medidas descritivas vindas dos dados em questão, não há nenhuma modelagem complexa e nem foi levado em consideração a possibilidade de existirem outros movimentos diferentes dos que já apareceram. Tudo bem, eu sei que existem outros movimentos, mas a gente vai fazer estatística básica, não mágica, então segue o baile.

Os dados

Como o objetivo é entender os padrões das combinações dentro dos WODs e as semanas em que eles aparecem, os dados devem ser (e são) os movimentos dos WODs na categoria RX. Desprezaremos cargas, Time CAPs, formatos, resultados e tudo o mais. Não é só a partir de números que conseguimos obter conclusões numéricas 🙂

São, no total, 8 anos de Open (2011 a 2018) e 41 rotinas diferentes, sendo que só no primeiro ano a duração foi de 6 semanas.

As evidências

Que a equipe da CrossFit tem a criatividade a mil para montar rotinas novas, ninguém duvida, mas você já parou pra pensar em quantos movimentos diferentes podem existir utilizando apenas os materiais “básicos” de uma box e suas combinações? Eu já, e me perdi nas contas.

Minha solução para este problema foi simples, mas talvez eu nunca chegue na resposta: conforme o tio Dave Castro vai anunciando os WODs, eu vou anotando os movimentos utilizados. Deixo o trabalho duro pra ele e ele me deixa sem a resposta final. Mais que justo e fácil!

E já que ele vai nos contar quais foram os movimentos utilizados, por que não aproveitarmos para descobrir quantas vezes eles apareceram nos aúncios?

Tabela de frequência e porcentagem para os movimentos apresentados nos Opens
Movimento Porcentagem Frequência Movimento Porcentagem Frequência
DU 7.84 8 Clean 1.96 2
T2B 7.84 8 DB Snatch 1.96 2
Thruster 7.84 8 Power Clean 1.96 2
C2B 6.86 7 BBJO 0.98 1
DL 6.86 7 C&J 0.98 1
Wall Ball 6.86 7 DB Hang C&J 0.98 1
Ring MU 5.88 6 DB Lunge 0.98 1
Burpees 4.90 5 DB Squat 0.98 1
Row 4.90 5 HS Walk 0.98 1
Box Jump 3.92 4 OH Lunge 0.98 1
HSPU 3.92 4 Push-Up 0.98 1
OHS 3.92 4 Push Press 0.98 1
Power Snatch 2.94 3 S2OH 0.98 1
Snatch 2.94 3 Squat C&J 0.98 1
Bar Facing Burpee 1.96 2 Squat Clean 0.98 1
BMU 1.96 2 Squat Snatch 0.98 1

Até 2018, foram usados 32 movimentos diferentes nos WODS, somando 102 movimentos no total!

São 8 anos de anúncios, sem repetir movimentos dentro dos anos, isto é, em TODOS OS ANOS tivemos Double UnderThruster e Toes to Bar. Seguindo esse mesmo raciocínio, mas ficando de fora apenas em algum dos anos, vêm Chest to BarDead Lift e Wall Ball.

Movimentos com frequências de 3 até 1 podem ser considerados como aqueles que aconteram menos vezes, ou seja, 62.5% dos movimentos não compõe usualmente as rotinas de treino.

Já temos informações legais sobre os movimentos, mas eles estão distribuídos em 5 semanas (sem contar 2011). Será que dá pra melhorarmos a análise e descobrir COMO é essa divisão? Sempre dá pra melhorar!

Tabela de frequência dos movimentos mais comuns de acordo com as semanas
Semana DU DL Ring MU Wall Ball Thruster C2B Row Burpees HSPU
1 2 1 0 0 0 0 1 3 0
2 1 2 0 0 0 2 0 0 0
3 3 1 3 2 0 1 0 0 0
4 1 3 3 4 0 0 3 0 4
5 1 0 0 1 7 3 1 2 0
6 0 0 0 0 1 1 0 0 0

Pra não poluir muito o texto e filtrando as informações mais relevantes, na tabela acima escolhi mostrar apenas os movimentos que aconteceram 3 vezes ou mais na mesma semana.

Indiscutivelmente, dá pra notar o lugar do Thruster no planejamento dos Opens. Essa belezinha esteve presente não só em todos os anos, mas também em TODAS AS ÚLTIMAS SEMANAS! Seguido por HSPU, com 4 aparições (todas na quarta semana), e Wall Ball, que apareceu mais vezes no total, mas também é mais frequente nessa semana.

Double Under já passeou por todas as semanas e Dead Lift só faltou aparecer na última, mas eles também têm suas preferências de ordem.

Um detalhe interessante, mas não determinístico para o nível de cansaço que temos em um WOD, é a quantidade de movimentos e a variação de seus estilos. A primeira parte eu respondo já, a segunda fica pra outro post.

Pela tabela abaixo, notamos que a quarta semana é diferenciada. Com uma média de três movimentos por rotina e um desvio padrão proporcionalmente alto, é a fase do Open com mais movimentos (entre 3 e 4), seguida pelas segunda e terceira semanas, que oscilam entre 2 e 3. Em contraste, as primeira e últimas semanas são as mais homogêneas, com uma média de dois movimentos, assim como a sexta, que aconteceu apenas uma vez e por isso não tem desvio-padrão (NaN significa “Not a Number”).

Média e desvio padrão para o número de movimentos por semana
Semana Média DP
1 2.125 0.64
2 2.375 0.74
3 2.625 1.19
4 3.250 1.04
5 2.125 0.35
6 2.000 NaN

Já sabemos quais são os movimentos mais comuns, as semanas em que eles aparecem mais vezes e quantos deles há, em média, em cada WOD. Todas essas análises são marginais, ou seja, olhando para cada movimento separadamente. Mas uma rotina, raramente, é composta por um movimento só.

Lembra aquele treino que seu coach massacrou um certo músculo na técnica e depois encheu o WOD de exercícios que continuavam a forçá-lo? Agora você vai entender o motivo!

O gráfico abaixo na versão interativa está aqui e apresenta todas as combinações duas a duas que já apareceram no Open, isto é, quais movimentos apareceram juntos e quantas vezes isso ocorreu.

Por exemplo, o 17.2 teve Power CleanToes to Bar e DB Lunge. Então, temos três combinações nele: 1-) Power Clean e Toes to Bar, 2-) Power Clean e DB Lunge e 3-) Toes to Bar e DB Lunge.

Para cada uma dessas combinações, uma linha sai de um movimento e vai até o outro. Conforme forem se repetindo as combinações, a linha vai engrossando. Tem muuuitas informações nessa figura 🙂

Uma delas é que Squat C&J só compôs um WOD e era o único movimento dele (note que não se liga a nenhum outro).

A outra é que Toes to Bar é o movimento mais combinado, aparecendo junto a outros 14. Logo em seguida, empatados, aparecem Double UnderDead Lift e Ring MU, combinados com outros 9 movimentos. E não é espanto algum eles serem os mais requisitados, uma vez que são uns dos mais frequentes, também.

Clean and Jerk apareceu apenas em um WOD (e com Toes to Bar), assim como Burpee Box Jump Over (com Dumbbell Snatch) e Squat Snatch(com Chest to Bar)…

Eu poderia ficar aqui num AMRAP de 3 horas que ainda assim não conseguiria extrair todas as informações que temos nesse post. E eu já fui muito bonzinho com vocês, é hora dos papéis se inverterem e vocês botarem a massa encefálica pra trabalhar!

Façam suas aposta$

Agora que vocês já têm esse monte de informações sobre o Open, além de tantas não ditas sobre as tabelas e o gráfico, que tal deixarem aqui nos comentários seus palpites para os anúncios de 2019?

E tudo bem se eles já tiverem acontecido quando você leu. Finge uma amnésia, foca nos dados e vamos ver juntos se no CrossFit o passado também se repete no futuro!

#VamosComNúmeros

#SupportYourOuwnResearchers

Nicholas W. Eugenio – Estatístico
Consultor Associado Analystats
Doutorando em Estatística (IME-USP)
Mestre em Estatística (DEs-UFSCar/ICMC-USP)
Bacharel em Estatística (DEs-UFSCar)
E-mail: [email protected]

2019-02-21T12:33:50-03:00fevereiro 20th, 2019|CrossFit Games|0 Comments

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